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Salomão Sousa 

03 JUL 2018
03 de Julho de 2018
Nasceu em Silvânia – GO, e está em Brasília desde janeiro de 1971, onde cursou jornalismo, que exerce como funcionário do Poder Executivo. Escreveu os seguintes livros: A moenda dos dias, Ed.Coordenada, Distrito Federal, 1979. A moenda dos dias/O susto de viver, convênio INL, Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1980; Falo, Thesaurus Editora, Distrito Federal, 1986; Criação de lodo, edição do autor, Distrito Federal, 1993; Caderno de desapontamentos, edição do autor, Distrito Federal, 1994; Chuço, zine xerocopiado (19 números até 1999); Estoque de relâmpagos, prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária, 2002; Ruínas ao sol, Prêmio Goyaz de Poesia, Ed. 7Letras, 2006; Safra Quebrada (reunião dos livros anteriores e de dois inéditos), publicado com recursos do FAC, 2007; Momento Crítico, de textos críticos, crônicas e aforismos.


fonte:https://framper.wordpress.com/2009/11/10/salomao-sousa-poema/
  DESPEJO

 

         Monte de plumas
         — não venha vento —
         voo a cada canto
         em que habita
         silêncio de existência.

         Cheio de ruas
         e novo nome
         me habitaram.
         Não por gosto
         de me mudar,
         mudo sempre a estar
         por perto.

         Esvazio-me de nome e ruas
         e ainda debandado,
         habitaram-me também
         silêncio e distância.

         E fico sem rumo e acordes
         para as ruas e os nomes.
         Vou nos bolsos,
         mapa mal traçado,
         ao qual não fazem uso.

 

 

         A SEDE

 

         A sede viola.

         A sede aperta
         e estão secos os goles,
         o copo e o de dizer
         a sede.

         As fontes jorram
         o seco.
         Os dentes, as raízes trincam
         o seco.

         Cactos espinham.
         Espiam raios de sol,
         a raiva.
         O deserto todo,
         vasta é a sede.

         A sede viola.

         Na sede,
         a árvore
         não solta 
         as folhas.
         Agarra-se 
         à seiva
         com as próprias voltas.

         Na sede,
         a seiva chora,
         as folhas violam
         a árvore.
         A sede evola.
         A sede
         desgarra.

        

 

O TEMPO E A HORA

 

Escuta as galinhas
no silêncio aberto
com a partida
dos filhos e marido.
Escuta a curicaca
na zoada. Sobe
até a beira da cerca.
Não desponta na estrada
e possível pessoa
anunciada.

Os dois angicos
da beira do curral
protegem a casa
solta no descampado,
ali o pica-pau
pica a morada.

Nem nota as árvores
de sentinela.
Nem pode passar barrela.
As picumãs, as panelas
escurecem o dia
já alto.
O serviço não admite
fora de hora.

Ginga os quadris
roliços.

Leva mais lenha
par dar cerco
ao fogo, à hora.

Outra safra
à vista.
A mata estronda
caindo na derrubada.
Quase vê o olhar 
do marido
acompanhando a árvore.

Cansada, ouve a safra
anunciando mais cansaço.
O que resta a fazer
é passar as mãos pelos olhos
para desanuviarem.
Ver o serviço
que não pode largar.

 
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